As eleições presidenciais costumam mexer com a Bolsa antes mesmo de o primeiro voto ser contabilizado. Isso acontece porque o mercado não olha apenas para quem poderá ocupar a Presidência, mas principalmente para o que pode mudar na economia nos quatro anos seguintes.
Em 2026, um dos cenários acompanhados pelos investidores é uma eventual troca de gestão, com a eleição de Flávio Bolsonaro. Entre as propostas discutidas por sua equipe econômica estão uma consolidação fiscal mais rápida, limitação do crescimento das despesas, revisão do arcabouço fiscal, venda de ativos e privatizações. A intenção declarada é melhorar a trajetória da dívida pública e contribuir para a redução do custo de capital da economia. Ainda existem, porém, dúvidas sobre a implementação e o apoio político necessário para colocar parte dessas medidas em prática.
É justamente essa diferença entre expectativa e realidade que cria o chamado “trade eleitoral”. Se os investidores passarem a enxergar maior probabilidade de ajuste fiscal, redução dos prêmios de risco e queda mais rápida dos juros, algumas empresas podem ser mais sensíveis a esse cenário do que outras.
Vale lembrar que a Selic já entrou em trajetória de redução e chegou a 13,75% em setembro, depois de cinco cortes consecutivos. O Banco Central, no entanto, ainda projeta uma economia relativamente moderada, com crescimento de 1,8% do PIB em 2026 e 1,4% em 2027. Portanto, uma eventual melhora das expectativas fiscais e econômicas poderia alterar principalmente a percepção sobre os juros futuros, o crescimento e o custo de capital das empresas.
Pensando nesse cenário específico, selecionamos dez empresas que possuem características capazes de aumentar sua sensibilidade a uma mudança nas expectativas:
Banco do Brasil (BBAS3), Petrobras (PETR4), B3 (B3SA3), Taurus (TASA4), Lojas Renner (LREN3), Cyrela (CYRE3), Motiva (MOTV3), EcoRodovias (ECOR3), SLC Agrícola (SLCE3) e Boa Safra (SOJA3).
Mas por que justamente essas empresas?
1. BBAS3 — Banco do Brasil
O Banco do Brasil talvez seja um dos exemplos mais claros de uma ação diretamente sensível ao cenário eleitoral. Por ser uma empresa controlada pela União, seu preço não depende apenas dos resultados do banco. O mercado também incorpora nas ações um prêmio de risco relacionado à possibilidade de interferência do controlador em decisões de crédito, rentabilidade, dividendos e alocação de capital.
Em um cenário no qual os investidores esperem uma gestão das estatais mais orientada à rentabilidade e à disciplina de capital, parte desse desconto pode diminuir. É o que chamamos de redução do risco político: mesmo que o lucro da companhia não mude imediatamente, o investidor pode aceitar pagar um múltiplo maior pelo mesmo lucro caso perceba menor risco de interferência.
Existe ainda um segundo componente. Uma melhora fiscal capaz de reduzir juros e estimular a atividade tende, ao longo do tempo, a favorecer a qualidade do crédito e diminuir a pressão sobre a inadimplência. Isso seria particularmente relevante para o Banco do Brasil neste momento. Após o 2T26, analistas reduziram projeções diante do aumento das provisões, deterioração de algumas linhas de crédito e dificuldades especialmente no agronegócio. Uma das estimativas disponíveis aponta lucro recorrente de aproximadamente R$ 16,9 bilhões em 2026 e R$ 23,5 bilhões em 2027, com recuperação do ROE de aproximadamente 9% para 12%.
Assim, BBAS3 combina duas possíveis alavancas em uma eventual mudança de cenário: recuperação operacional do banco e redução do desconto associado ao controle estatal. É justamente essa combinação que pode tornar o papel mais sensível às eleições do que o Ibovespa como um todo.
2. PETR4 — Petrobras
A Petrobras segue uma lógica semelhante, mas em escala ainda maior. A companhia é uma das empresas mais importantes da Bolsa e seu valor depende de variáveis como preço internacional do petróleo, câmbio, produção, investimentos, custos e política de distribuição de dividendos. Mas, por ser controlada pelo governo federal, existe também um componente político relevante em sua precificação.
O mercado costuma acompanhar principalmente a política de preços dos combustíveis, o tamanho do plano de investimentos, eventuais aquisições e a utilização do caixa. Quanto maior a percepção de que as decisões serão tomadas com foco em retorno sobre o capital investido, geração de caixa e rentabilidade dos projetos, menor tende a ser o prêmio de risco exigido pelo investidor.
Isso não significa que uma mudança de governo automaticamente produziria mais dividendos ou maior lucro. O petróleo continuaria sendo determinante. Mas uma alteração na percepção sobre governança e disciplina de capital poderia provocar uma reprecificação dos múltiplos da companhia. A Petrobras continua, inclusive, apresentando capacidade relevante de distribuição: somente em relação ao resultado do 2T26 foram declarados aproximadamente R$ 1,35 por ação entre dividendos e juros sobre capital próprio.
Por isso, PETR4 funciona nessa carteira principalmente como uma tese de redução do risco político associado à estatal, além da exposição tradicional ao petróleo e à geração de caixa.
3. B3SA3 — B3
Aqui a lógica muda completamente. A B3 não é uma estatal, mas pode ser uma das empresas que mais se beneficiam de uma mudança no ambiente financeiro brasileiro.
Juros elevados aumentam a atratividade da renda fixa e encarecem o custo de capital das empresas. Quando os juros caem, ocorre o movimento contrário: ações passam a disputar de maneira mais competitiva o dinheiro dos investidores, empresas voltam a acessar o mercado de capitais e operações de IPO, follow-on e emissão de dívida podem ganhar força.
E praticamente tudo isso passa pela infraestrutura da B3. Uma Bolsa mais aquecida significa potencialmente maior volume negociado em ações, derivativos e outros instrumentos. Uma retomada do mercado de capitais também aumenta a utilização dos serviços de listagem, registro, custódia e infraestrutura financeira da companhia.
A B3 possui ainda uma característica importante: grande parte de sua infraestrutura já está instalada. Isso permite que aumentos de receita possam produzir expansão relevante dos resultados sem crescimento proporcional dos custos. Em outras palavras, existe alavancagem operacional.
Portanto, se uma melhora fiscal provocar fechamento da curva de juros, entrada de recursos na Bolsa e aumento da atividade no mercado de capitais, B3SA3 pode capturar diferentes partes desse movimento simultaneamente. É uma tese menos dependente de uma decisão específica do governo e mais dependente da melhora do ambiente para ativos de risco.
4. TASA4 — Taurus
A Taurus representa uma tese diferente dentro da carteira porque combina fundamentos empresariais com elevada sensibilidade ao ambiente regulatório.
A companhia possui forte presença internacional e grande parte de suas receitas está relacionada ao mercado externo, especialmente aos Estados Unidos. Portanto, câmbio, demanda norte-americana e condições do setor de armas nos EUA continuam sendo fatores fundamentais para seus resultados.
No Brasil, entretanto, alterações na regulamentação sobre aquisição e posse de armas podem modificar o tamanho do mercado potencial da companhia. Uma eventual administração que adote regras menos restritivas poderia ser interpretada pelos investidores como favorável ao mercado doméstico. Essa hipótese depende, naturalmente, das medidas efetivamente propostas, da legislação e de sua implementação.
Do ponto de vista operacional, a companhia chegou ao 2T26 com lucro líquido de R$ 97,4 milhões, EBITDA de R$ 124,8 milhões e margem EBITDA de 34,6%. A dívida líquida caiu para R$ 426,1 milhões, redução de 25,5% em relação ao mesmo período de 2025. Por outro lado, a receita líquida trimestral recuou 10,3% na comparação anual, mostrando que a tese não depende apenas da política brasileira.
TASA4 aparece, portanto, como uma empresa de maior volatilidade dentro desse cenário: além do possível efeito regulatório doméstico, existe exposição ao dólar, ao consumidor norte-americano e ao ciclo internacional do setor.
5. LREN3 — Lojas Renner
Poucas áreas da Bolsa sentem tanto os juros quanto o varejo. E é justamente por isso que Lojas Renner entra nessa seleção.
Imagine uma sequência: melhora da percepção fiscal → redução dos juros futuros → queda gradual da Selic → crédito mais barato → menor comprometimento da renda das famílias → recuperação do consumo. Uma empresa de varejo discricionário como a Renner pode aparecer perto do final dessa cadeia.
Juros menores também podem melhorar o resultado financeiro das empresas e elevar o valor presente de seus lucros futuros. Por isso, ações de crescimento e consumo costumam apresentar sensibilidade elevada a mudanças na curva de juros.
O momento operacional ajuda a entender a assimetria da tese. No 2T26, a Renner apresentou lucro líquido de aproximadamente R$ 405 milhões, praticamente estável na comparação anual, e reduziu sua projeção de crescimento da receita líquida de 2026 para uma faixa entre 4% e 8%. A própria empresa citou ambiente macroeconômico mais difícil e elevado endividamento das famílias entre os fatores que prejudicaram as vendas.
Isso significa que uma melhora justamente nessas variáveis poderia alterar as expectativas para os próximos resultados. LREN3 seria, portanto, uma forma de exposição à eventual recuperação do consumo doméstico.
6. CYRE3 — Cyrela
Se existe um setor diretamente ligado ao custo do dinheiro, é o imobiliário. A compra de um imóvel geralmente depende de financiamento de longo prazo. Quando os juros são elevados, as prestações ficam maiores, o financiamento se torna menos acessível e a demanda tende a ser prejudicada. Quando a curva de juros recua, ocorre o movimento inverso.
Para as incorporadoras, o efeito aparece dos dois lados. O comprador encontra melhores condições de financiamento e a própria empresa pode acessar capital a custos menores. Além disso, a redução da taxa de desconto utilizada pelo mercado aumenta o valor presente dos fluxos de caixa futuros dos projetos.
A Cyrela chega a esse possível ciclo com fundamentos relevantes. No 2T26, lançou R$ 3,84 bilhões em projetos, aumento de 34% na comparação anual, vendeu R$ 2,56 bilhões, registrou margem bruta de 34,4% e lucro líquido de R$ 452 milhões. O ROE dos últimos 12 meses atingiu 20,9%.
Isso torna a tese especialmente interessante para compreender o conceito de sensibilidade aos juros: não seria necessário esperar a Selic chegar a patamares muito baixos. Uma redução consistente dos juros futuros já pode modificar o valuation das incorporadoras antes que todo o efeito apareça nos balanços.
7. MOTV3 — Motiva
A antiga CCR, hoje Motiva, oferece exposição a rodovias, mobilidade urbana e aeroportos, negócios de infraestrutura com contratos de longa duração e elevada necessidade de capital.
Essa última característica é fundamental. Projetos de infraestrutura exigem grandes investimentos iniciais e possuem fluxos de caixa distribuídos ao longo de décadas. Quanto maior a taxa de juros utilizada para descontar esses fluxos, menor tende a ser seu valor presente. Portanto, uma redução estrutural do custo de capital pode aumentar o valor econômico desses ativos.
Ao mesmo tempo, uma economia mais forte tende a aumentar deslocamentos, tráfego rodoviário, passageiros e atividade logística. Dessa forma, Motiva pode receber dois impulsos diferentes: menor custo de capital e crescimento operacional.
A companhia já apresenta expansão relevante. No 2T26, a receita líquida ajustada avançou 20,8%, para R$ 3,63 bilhões, enquanto o EBITDA ajustado cresceu 30,1%, alcançando R$ 2,37 bilhões. A margem EBITDA passou de 60,6% para 65,3%. O crescimento foi ajudado pelas novas concessões e pelo desempenho de tráfego.
Em um cenário de maior disciplina fiscal e retomada dos investimentos privados em infraestrutura, a percepção sobre novas concessões e o custo de financiamento desses projetos também se torna uma variável importante.
8. ECOR3 — EcoRodovias
EcoRodovias compartilha parte do racional da Motiva, mas possui uma característica que pode tornar a ação ainda mais sensível aos juros: sua alavancagem financeira.
No 2T26, a companhia apresentou crescimento operacional e expansão de receita, ajudada pelo aumento do tráfego de veículos pesados e por reajustes tarifários. Ao mesmo tempo, despesas financeiras mais elevadas e aumento da alavancagem continuaram pressionando o resultado.
É justamente aí que aparece a relação com o cenário macroeconômico. Para uma empresa endividada e com grandes compromissos de investimento, uma redução do custo de financiamento pode produzir impacto proporcionalmente maior no lucro disponível ao acionista.
Existe também o efeito atividade. Crescimento do PIB significa maior circulação de mercadorias e pessoas, aumentando potencialmente o tráfego nas rodovias. Como as concessões possuem horizontes longos, mudanças nas expectativas de crescimento e juros podem provocar efeitos relevantes no valuation.
ECOR3 representa, portanto, uma tese de maior sensibilidade financeira: juros menores podem reduzir a pressão financeira ao mesmo tempo em que uma economia mais forte aumenta o tráfego. A contrapartida é que a alavancagem também aumenta o risco caso o cenário esperado não se concretize.
9. SLCE3 — SLC Agrícola
À primeira vista, uma empresa agrícola pode parecer menos relacionada à eleição presidencial. Mas a SLC Agrícola acrescenta diversificação à carteira e exposição a uma das áreas mais importantes da economia brasileira.
A companhia é uma das maiores produtoras agrícolas do país e possui exposição principalmente a soja, milho e algodão. Seus resultados dependem de preços internacionais das commodities, produtividade, clima, câmbio e custos de produção.
No 2T26, a receita líquida chegou a R$ 2,2 bilhões, crescimento de 16,8% em relação ao ano anterior, impulsionada por aumento de 14,4% no volume faturado. Houve crescimento de volumes em algodão, soja e milho.
A relação com o cenário eleitoral é mais indireta. Uma política econômica percebida como favorável ao investimento privado, infraestrutura e segurança fiscal pode reduzir custos de financiamento e melhorar as condições para novos investimentos no agronegócio. Por outro lado, uma eventual valorização do real decorrente da redução do risco-país pode diminuir, em reais, parte das receitas provenientes de commodities precificadas em dólar.
Por isso, SLCE3 funciona também como elemento de diversificação: seu resultado não depende exclusivamente da economia doméstica. Mesmo que consumo e construção avancem menos do que o esperado, produtividade agrícola, preços internacionais e safra continuam exercendo enorme influência sobre o negócio.
10. SOJA3 — Boa Safra
A Boa Safra fecha a carteira com uma maneira diferente de participar do crescimento do agronegócio: em vez de produzir soja, seu principal negócio está ligado às sementes.
Sementes de maior qualidade e tecnologia são essenciais para aumentar produtividade por hectare. À medida que o produtor rural busca produzir mais na mesma área, genética, tecnologia e qualidade das sementes ganham importância.
No 2T26, a Boa Safra registrou receita líquida de aproximadamente R$ 125 milhões e EBITDA ajustado de R$ 28 milhões. Um dos destaques foi o backlog recorde de aproximadamente R$ 1,8 bilhão. A companhia também vem ampliando negócios em novas culturas, serviços e insumos, reduzindo gradualmente sua dependência exclusiva das sementes de soja.
Juros menores são particularmente importantes no agronegócio porque a atividade utiliza muito capital de giro. O produtor financia insumos meses antes da colheita, enquanto empresas da cadeia precisam financiar estoques e recebíveis. Uma redução do custo do dinheiro pode melhorar as condições financeiras de toda essa cadeia.
Assim como na SLC, porém, clima, preços agrícolas, disponibilidade de crédito rural e renda do produtor continuam sendo variáveis essenciais. A eleição pode alterar parte do ambiente econômico, mas não elimina o ciclo natural do agronegócio.
O que une essas dez ações?
Apesar de pertencerem a setores completamente diferentes, essas empresas foram reunidas porque possuem exposição a alguns canais que poderiam ganhar importância em um cenário de mudança na política econômica.
BBAS3 e PETR4 são as mais diretamente relacionadas à percepção sobre governança das estatais. B3SA3, LREN3 e CYRE3 apresentam forte sensibilidade à curva de juros e à atividade doméstica. MOTV3 e ECOR3 combinam infraestrutura, crescimento econômico e custo de capital. TASA4 acrescenta uma possível variável regulatória específica, além da exposição internacional. Já SLCE3 e SOJA3 representam o agronegócio e ajudam a diversificar a carteira com empresas cujo desempenho também depende de commodities, produtividade e safra.
CARTEIRA FINAL SUGERIDA:
BBAS3 | 10%
PETR4 | 10%
B3SA3 | 10%
TASA4 | 10%
LREN3 | 10%
CYRE3 | 10%
MOTV3 | 10%
ECOR3 | 10%
SLCE3 | 10%
SOJA3 | 10%
O ponto central é entender que o mercado não precisa esperar todas as mudanças acontecerem. A Bolsa trabalha com expectativas. Se os investidores passarem a projetar maior disciplina fiscal, menor risco-país e juros estruturalmente menores, os preços podem começar a incorporar esse cenário antes de ele aparecer integralmente no PIB ou nos resultados das empresas.
O inverso também é verdadeiro. Caso as medidas esperadas não sejam implementadas, o ajuste fiscal fique aquém das expectativas, a inflação volte a pressionar ou os juros permaneçam elevados por mais tempo, parte dessa reprecificação pode não ocorrer ou até ser revertida.
Por isso, uma Carteira Eleições deve ser entendida como uma carteira temática para um determinado cenário econômico, e não como uma previsão de resultado eleitoral ou garantia de desempenho superior ao Ibovespa. Mais importante do que tentar antecipar a urna é entender quais empresas são mais sensíveis às mudanças de juros, crescimento, política fiscal, regulação e governança, e acompanhar se essas premissas realmente começam a aparecer na economia e nos resultados corporativos.
